Prefeitura fortalece acolhimento, inclusão e cuidado em saúde para população trans do município
Neste mês do Orgulho LGBTQIA+, Hortolândia dá mais um exemplo de respeito à diversidade de gênero. A Prefeitura passa a contar com uma profissional médica transexual para atuar no Ambulatório Trans. A unidade fica dentro do CEI (Centro Especializado em Infectologia), localizado na região da Vila São Pedro.
De acordo com a Secretaria de Saúde, a contratação da médica fortalece o trabalho de acolhimento, inclusão e cuidado em saúde para a população trans atendida pelo município.
A profissional é a médica generalista Amélia Flor. Ela é a primeira mulher trans a se formar em Medicina pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em 2022.
Mais do que uma carreira profissional, a decisão de se formar em Medicina foi uma escolha para a vida. “Minha relação com a escolha pela Medicina é complexa de diversas formas. Acho que a principal era, com certeza, o fato de a Medicina me dar abertura para ser quem eu sempre fui. Para sair do casulo, de certa forma. Escolhi ser médica no terceiro ano do Ensino Médio, lá no interior de Minas Gerais. Medicina era algo impensável para alguém como eu, de origem humilde. Mas meus pais bancaram a minha escolha e sonharam comigo, trabalhando muito para tornar esse sonho possível. Esse sonho que, para mim, não era mera questão profissional, mas sim a esperança de poder me entender e me conectar com as questões da transição e dos melhores caminhos para fazê-la”, conta a médica.
Ao longo de sua jornada, Amélia enfrentou muitos preconceitos. “Fui expulsa de banheiro. Fui ignorada por professores. Duvidaram da minha capacidade para ocupar esse espaço, uma vez que, na cabeça de muitos conservadores, o destino para mulheres trans/travestis é se tornar profissional do sexo. São cicatrizes que levo para sempre. De momentos que me adoeceram, mas também contribuíram para me tornar a mulher que sou hoje”, relata Amélia.
DEMANDAS
A médica começou a atuar no ambulatório no início deste mês. “Eu estou amando o trabalho. Gosto de trabalhar com pessoas trans e com populações vulneráveis. Eu me sinto próxima deles, delas e de mim mesma, de certa forma”, destaca Amélia.
Dentre as principais demandas atendidas pela médica estão hormonização e encaminhamento para cirurgias.
“A hormonização é o processo em que são usados hormônios exógenos para auxiliar na afirmação de gênero com o qual a pessoa se identifica. As cirurgias que encaminhamos para serviços de referência incluem mastectomia masculinizadora, mamoplastia e redesignação sexual. Apesar da transgeneridade ser muito mais ampla que esses processos, eles fazem parte do cuidado em saúde no sentido de reduzir sofrimentos e melhorar a vida das pessoas trans”, explica a profissional.
EXPERIÊNCIA DE VIDA
A experiência de vida da médica ajuda-a em seu trabalho e a deixar pacientes mais à vontade. “Eu sempre brinco dizendo que não há vínculo maior que o nosso. Eu consigo entender de forma mais ampla os desejos e as necessidades das pessoas que vêm para atendimento. Bem como consigo proporcionar reflexões acerca dos impactos que a transfobia tem nessas necessidades. Há muita coisa imposta socialmente e de forma binária sobre ser mulher ou homem que acaba, por vezes, adoecendo as pessoas trans exatamente pela falta de um espaço para se refletir sobre isso. O gênero é construído e desconstruído a séculos. O movimento feminista faz muito isso. Pensar nesse processo de construção de forma crítica é vital para separarmos o que é realmente nosso e o que é dos outros”, avalia Amélia.
Por meio de seu trabalho, Amélia acredita que pode ajudar a população trans a garantir direitos e ter acesso à informação. “Eu acredito que a população trans de Hortolândia já tem o seu espaço. Mas que pode ocupar qualquer espaço da sociedade, pois é direito. Fica difícil garantir nosso direito quando ainda brigamos para ter dignidade nos serviços. E essa sempre será uma luta minha! Garantir a dignidade e informar os direitos das pessoas trans”, destaca a médica.
COMBATER O PRECONCEITO
Por meio de sua atuação, Amélia também busca combater o preconceito. “Eu gostaria de me colocar à disposição para ensinar e aprender com toda a população. Tem uma reflexão que gosto muito que diz que as pessoas não nascem odiando, elas são ensinadas. E se elas podem ser ensinadas a odiar, também podem ser ensinadas a amar. Acho que o diálogo e a escuta podem nos ajudar a melhorar a vida de todos, todas e todes no município”, diz a profissional.
Para a coordenadora do CEI, Vanessa Dylian dos Santos, a vinda da médica é positiva. “A chegada da Amélia somou de forma expressiva à carga horária, ampliando a disponibilidade de agendamentos e fortalecendo o atendimento do Ambulatório Trans. Com seu perfil acolhedor, ela tem conquistado rapidamente pacientes. Demonstrou excelente entrosamento com a equipe. Esse ajuste estratégico na agenda nos traz maior flexibilidade, permitindo expandir a atuação com ações essenciais para além do espaço ambulatorial”, destaca a coordenadora.
AMBULATÓRIO
De acordo com a coordenação, o Ambulatório Trans atende, em média, 75 pessoas por mês. Atualmente, a unidade tem 118 pacientes cadastrados.
O Ambulatório Trans começou a funcionar em 2024. É uma unidade de saúde especializada, cujo foco é orientar a população trans que queira fazer a transição de gênero, e oferecer tratamentos para que isso possa ser feito de maneira segura e adequada. A unidade conta com equipe multidisciplinar composta por seis profissionais, dentre médicos, farmacêutico, psicólogo, assistente social e enfermeiro.
O trabalho desenvolvido pelo ambulatório já tem conquistado reconhecimento em âmbito regional e estadual. Em 2025, a unidade recebeu a visita de vereadores de Vinhedo.
Também em 2025, o ambulatório recebeu menção honrosa no 38º Congresso do Cosems (Conselho dos Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo).
O ambulatório fica dentro do CEI (Centro Especializado em Infectologia). O centro é a unidade de referência na cidade para tratamento e acompanhamento de pacientes com HIV, hepatites virais e outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis). A equipe do centro é formada por 25 servidores e profissionais médicos.
O órgão oferece gratuitamente à população testes rápidos para a detecção dessas infecções. A aplicação de testes é feita das 8h às 15h. Não é necessário fazer agendamento para os testes rápidos, cujos resultados ficam prontos em poucos minutos. O teste rápido também está disponível nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) do município. O CEI está localizado na avenida Thereza Ana Cecon Breda, 1.115, Vila São Pedro.

Última atualização: Úquarta-feira305306pm pm30000000pmquarta-feira53174pmçã2026: 24 de junho de 2026